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Trava de alta: como controlar as duas pernas e apurar o resultado certo

A estrutura é uma só para o risco e duas operações para a Receita. Modalidade, mês de competência, exercício e encerramento parcial são os quatro pontos onde o resultado da estratégia diverge do fiscal, com números fechados.

Neste artigo10 seções
  1. Introdução
  2. O que é uma trava de alta e o que a legislação enxerga
  3. Os números: um caso completo com os três desfechos
  4. Os quatro pontos onde o resultado da estratégia diverge do fiscal
  5. Como controlar as duas pernas: planilha ou CarteiraOpções
  6. Mitos e realidade
  7. Guia prático: como controlar uma trava em 5 etapas
  8. O veredito, e o que ele muda na sua rotina
  9. Da montagem à apuração em quatro passos
  10. Perguntas frequentes

Resumo executivo (TL;DR): a trava de alta é uma estratégia para você e duas operações para a Receita. Cada perna tem resultado, modalidade e mês de competência próprios, e elas podem cair em cestas tributárias que não se compensam entre si. Controlar bem uma trava significa manter as duas pernas registradas separadamente e agrupadas por cima, nunca fundidas em uma linha só.

Introdução

A trava de alta costuma ser a primeira estrutura que alguém monta depois de comprar a primeira call seca. O motivo é razoável. Ela custa menos que a call isolada, tem perda máxima conhecida antes da entrada e transforma uma aposta direcional em um retângulo desenhado no gráfico de payoff.

As corretoras reforçam essa leitura. A boleta é uma só, a plataforma mostra um número consolidado do tipo "trava BBAS3 abril, mais R$ 340" e o gráfico trata a estrutura como um objeto único. Do ponto de vista de risco, está tudo certo.

A tensão aparece na apuração. O livro fiscal tem duas linhas, e nenhuma delas se chama trava de alta. A B3 registra duas posições independentes e a Receita apura duas operações independentes. O número consolidado que a plataforma exibe não é o número que vai para a DARF. Em vários desfechos comuns ele nem sequer cai no mesmo mês ou na mesma alíquota.

Este artigo mostra a matemática das duas pernas com um caso completo, percorre os três desfechos possíveis no vencimento e quantifica os quatro pontos em que o resultado da estratégia diverge do resultado fiscal. No fim você vai saber exatamente o que precisa registrar, e por que uma linha só nunca basta.

O que é uma trava de alta e o que a legislação enxerga

A estrutura

Uma trava de alta (bull call spread) é montada com duas calls de mesmo vencimento e mesma quantidade. Você compra a call de strike menor (K1), que é a perna geradora de ganho, e vende a call de strike maior (K2), que financia a compra e limita o ganho.

Como o prêmio pago em K1 é maior que o recebido em K2, a montagem sai a débito líquido. Quatro números definem a estrutura inteira:

  • Custo líquido, que é o prêmio pago menos o prêmio recebido
  • Perda máxima, igual ao custo líquido
  • Ganho máximo, calculado por (K2 menos K1) menos o custo líquido
  • Preço de equilíbrio, calculado por K1 mais o custo líquido

Existe também a trava de alta com puts (bull put spread), em que você vende a put de strike maior e compra a de strike menor, entrando a crédito líquido. A exposição direcional é a mesma. Muda o financiamento e muda o risco de exercício. Tudo o que este artigo diz sobre controle de pernas vale igualmente para ela.

O que a legislação enxerga

A Instrução Normativa RFB nº 1.585/2015 organiza a apuração por mercado, não por estratégia. O art. 59 trata dos mercados de opções, o art. 58 trata dos mercados à vista e o art. 61 trata das operações day trade. O art. 56, § 3º define ganho líquido como o resultado positivo das operações "realizadas em cada mês, admitida a dedução dos custos e despesas incorridos, necessários à realização das operações".

Leia de novo a palavra que importa: operações. Não há artigo, campo, código ou anexo para trava, spread ou estrutura. A norma simplesmente não conhece o conceito.

A consequência prática é a tese deste artigo. A trava de alta é uma abstração de risco, não uma entidade fiscal. Ela existe na sua cabeça, no gráfico de payoff e na boleta da corretora. No livro de apuração existem uma call comprada e uma call vendida, cada uma seguindo o próprio caminho.

Os números: um caso completo com os três desfechos

BBAS3 negociando a R$ 27,00. Você monta uma trava de alta com vencimento em um mês, 1.000 contratos em cada perna. Compra a call de strike R$ 27,00 por R$ 0,90, pagando R$ 900,00, e vende a call de strike R$ 29,00 por R$ 0,35, recebendo R$ 350,00.

Os quatro números da estrutura ficam assim:

  • Custo líquido de R$ 550,00, ou R$ 0,55 por ação
  • Perda máxima de R$ 550,00
  • Ganho máximo de R$ 1.450,00, resultado de (R$ 29,00 menos R$ 27,00 menos R$ 0,55) multiplicado por 1.000
  • Preço de equilíbrio em R$ 27,55, o que exige alta de 2,04% só para empatar
  • Relação risco e retorno de 2,64 para 1

Os três desfechos no vencimento

BBAS3 no vencimentoResultado por pernaResultado da trava
A. R$ 26,00, abaixo de K1Comprada: −R$ 900,00
Vendida: +R$ 350,00
−R$ 550,00, a perda máxima
B. R$ 28,20, entre os strikesComprada: +R$ 300,00
Vendida: +R$ 350,00
+R$ 650,00
C. R$ 30,00, acima de K2Comprada: +R$ 2.100,00
Vendida: −R$ 650,00
+R$ 1.450,00, o ganho máximo

Repare no cenário C. O resultado da trava é o ganho máximo de R$ 1.450,00, mas as duas pernas vão em direções opostas. A comprada entrega mais R$ 2.100,00 e a vendida entrega menos R$ 650,00. Quem registra uma linha só apaga essa informação, e é exatamente ela que determina o tratamento fiscal.

Os quatro pontos onde o resultado da estratégia diverge do fiscal

1. As duas pernas podem cair em modalidades diferentes

Este é o mais caro e o menos conhecido. Modalidade é definida por operação. Abriu e fechou a mesma série no mesmo pregão, é day trade a 20%. Em datas diferentes, é swing trade a 15%.

Suponha que você monte a trava na segunda-feira. Na mesma segunda a ação cai e você recompra a perna vendida barato, com prejuízo. Na quinta, vende a perna comprada com lucro. O que acontece é isto:

  • A perna vendida, fechada no mesmo dia, é day trade e produziu resultado de −R$ 200,00
  • A perna comprada, fechada três dias depois, é swing trade e produziu resultado de +R$ 700,00
  • O resultado da estratégia é +R$ 500,00

As duas cestas não se comunicam. O prejuízo de day trade não abate o lucro de swing trade nesse mês, nem em nenhum outro.

LeituraBase de cálculoImposto do mês
"Foi uma trava, lucro de R$ 500"R$ 500,00 a 15%R$ 75,00
Apuração correta, perna a pernaR$ 700,00 a 15%, swing tradeR$ 105,00
Sobra o prejuízo de day tradeR$ 200,00 travados na cesta day tradeCrédito, sem uso imediato

São R$ 30,00 a mais no mês, 40% acima da conta ingênua, além de R$ 200,00 de crédito parado. Esse crédito só será útil se você fizer day trade lucrativo no futuro. Se nunca fizer, o abatimento nunca acontece.

2. As duas pernas podem cair em meses diferentes

Você fecha a perna comprada em 28 de março, embolsando o lucro, e deixa a perna vendida virar pó no vencimento de 17 de abril.

Na sua cabeça a trava fechou em abril, com um resultado só. Na apuração, março recebe o resultado da perna comprada e abril recebe o prêmio da perna vendida que virou pó. São duas DARFs, com dois vencimentos diferentes.

Há um efeito colateral que passa despercebido. Se março tinha prejuízo acumulado e abril não tinha, o mesmo resultado total gera imposto diferente dependendo apenas de como você partiu as datas.

3. O exercício muda a operação de mercado

Se a call vendida for exercida, o prêmio recebido deixa de ser resultado de opção. Pelo art. 59, no exercício da opção de compra o lançador apura o ganho pela diferença entre o preço de exercício acrescido do prêmio recebido e o custo de aquisição do ativo. O prêmio é incorporado ao valor de venda das ações e o resultado migra para a apuração do mercado à vista.

Isso não é detalhe contábil. No mercado à vista de ações em swing trade existe isenção mensal para vendas de até R$ 20 mil, que não existe em opções. Mesma trava, mesma tese, mesmo lucro. O desfecho por exercício e o desfecho por recompra da opção caem em cestas tributárias diferentes.

Some a isso o fato de que, na B3, as opções de compra sobre ações são americanas. Podem ser exercidas a qualquer momento até o vencimento, e não apenas no último dia. Você não controla quando isso acontece.

4. O encerramento parcial desmonta a estrutura

Você recompra 400 dos 1.000 contratos da perna vendida e mantém a comprada inteira. Fiscalmente, apura o resultado sobre 400 contratos e pronto.

Estruturalmente, aconteceu algo maior. Você não tem mais uma trava. Tem 1.000 calls compradas e 600 vendidas, o que equivale a uma trava de 600 contratos somada a 400 calls compradas a seco. Perda máxima, ganho máximo e preço de equilíbrio que você anotou na montagem ficaram obsoletos, e nenhuma planilha avisa isso.

Como controlar as duas pernas: planilha ou CarteiraOpções

A tentativa mais comum é criar uma linha por estrutura, algo como TRAVA BBAS3 ABR, resultado R$ 650,00. É intuitivo e funciona enquanto os dois desfechos forem simultâneos e idênticos.

Ela quebra nos quatro pontos acima, sempre na mesma ordem. A linha única não sabe qual perna fechou quando, então não consegue classificar a modalidade. Não sabe em que mês cada resultado se realizou, então gera a DARF do mês errado. No exercício, não migra de cesta, e o resultado fica em opções quando deveria estar em ações. No encerramento parcial de uma perna, sobrescreve a quantidade e perde a estrutura remanescente.

Quem opera de três a cinco travas por mês gasta tipicamente de 2 a 3 horas entre lançar, conferir e refazer a apuração ao perceber que uma perna fechou em outro mês. O retrabalho se concentra em maio, quando a declaração exige reconstruir o ano inteiro.

CritérioPlanilha ou controle manualCarteiraOpções
Unidade de registroUma linha por estrutura, resultado fundidoUma operação por perna, agrupadas em uma estratégia
Modalidade de 15% ou 20%Atribuída à estrutura inteira, no chuteDerivada das datas de cada perna, de forma independente
Mês de competênciaO mês em que você lembrou de lançarO mês do fecho de cada perna, separadamente
Encerramento parcial de uma pernaQuantidade sobrescrita, estrutura remanescente invisívelDivide em saldo em aberto e fatia encerrada, com rastro
Rolagem de uma das pernasFórmula reescrita à mão, vínculo perdidoPerna fechada apurada no mês do fecho, nova posição vinculada à origem
Resultado consolidado da teseÉ o único número que existeP&L da estratégia, calculado por cima das pernas reais
Status da estruturaControlado de cabeçaAutomático, em andamento enquanto houver perna aberta
Auditoria em maioReconstruir de memória qual perna fechou quandoHistórico cronológico com exportação em CSV e PDF

A funcionalidade de Estratégias do CarteiraOpções existe por causa dessa tensão. As pernas são registradas como operações independentes, que é o que a apuração exige, e a estratégia é uma camada por cima. Ela agrupa essas operações e devolve o P&L consolidado da tese, o histórico cronológico de todas as pernas e o status da estrutura. Você lê o número da estratégia quando está pensando em risco e o número das operações quando está pagando imposto. São os dois, e eles não precisam ser o mesmo registro.

Mitos e realidade

Mito 1: a trava é uma operação só, então apuro o resultado líquido

São duas operações em qualquer leitura da IN 1.585/2015, que apura por mercado e por operação. O resultado líquido da estrutura é informação de gestão, não base de cálculo.

O mito persiste porque toda a interface do mercado empurra nessa direção. Boleta única de estratégia, gráfico de payoff único, P&L consolidado no home broker. A única superfície que separa as pernas é a nota de corretagem, justamente a que ninguém lê linha a linha.

Mito 2: risco limitado significa que não posso perder mais que o custo líquido

Verdade, com duas exceções que acontecem na prática.

  • Se você fechar apenas a perna comprada, sobra uma call vendida a descoberto, com risco teoricamente ilimitado e chamada de margem. A trava protegia porque as duas pernas existiam juntas.
  • Sendo americanas, as calls de ações na B3 podem ser exercidas a qualquer momento. Você é chamado a entregar as ações antes de decidir o que fazer com a perna comprada.

O mito persiste porque o gráfico de payoff descreve um único instante, o vencimento, com as duas pernas intactas. Ele não descreve nenhum dos caminhos até lá.

Mito 3: as duas viraram pó, então não preciso lançar nada

Este é o erro que mais custa a longo prazo. No cenário A do exemplo as duas pernas viraram pó e ainda assim geraram dois resultados, menos R$ 900,00 na comprada e mais R$ 350,00 na vendida. O líquido de menos R$ 550,00 é crédito de compensação, abate lucros futuros da mesma modalidade e não tem prazo de validade. Só que ele precisa estar registrado.

O mito persiste porque a estrutura que vira pó não gera DARF nem movimentação relevante na conta. Ausência de imposto a pagar é confundida com ausência de fato a registrar.

Guia prático: como controlar uma trava em 5 etapas

  1. Registre duas operações na montagem, nunca uma. Cada perna com a própria série, strike, quantidade, preço e data. É esse registro que torna possível classificar modalidade e mês depois, e a informação não pode ser recuperada se você não gravar agora.
  2. Anote os quatro números da estrutura, ou seja, custo líquido, perda máxima, ganho máximo e preço de equilíbrio. Eles definem sua tese e são o que você vai comparar com o resultado real.
  3. Agrupe as duas pernas em uma estratégia. É a camada que responde como foi a tese, sem contaminar o registro fiscal. Sem ela você tem operações soltas e nenhuma leitura de risco.
  4. Ao desmontar, registre cada perna com a data e o preço reais. Se uma fechou hoje e a outra semana passada, são duas datas. Se uma virou pó no vencimento, o resultado é do mês do vencimento, não do mês em que você montou.
  5. Classifique modalidade perna a perna antes de gerar a DARF, comparando a data de abertura com a de fecho de cada operação. É aqui que a diferença entre 15% e 20% aparece, e onde o prejuízo de uma cesta deixa de abater o lucro da outra.

O veredito, e o que ele muda na sua rotina

A trava de alta é uma boa estrutura de risco e uma péssima unidade de registro.

Como ferramenta de exposição ela cumpre o que promete. Limita a perda, reduz o custo de entrada e define o retorno máximo antes mesmo de você apertar o botão. Como linha de planilha, destrói exatamente a informação de que a apuração depende: qual perna fechou, quando, a que preço e em qual mercado.

Controlar uma trava corretamente significa sustentar duas verdades ao mesmo tempo. Duas operações independentes no livro, e uma estratégia agrupando as duas por cima. Quem colapsa isso em um único registro não economiza trabalho, apenas transfere o trabalho para maio, e com informação pior.

Abra sua última trava desmontada e responda a duas perguntas. As pernas fecharam no mesmo dia? Fecharam no mesmo mês? Se a resposta for não em qualquer uma delas, seu resultado está partido em dois lançamentos, e provavelmente em duas alíquotas.

Da montagem à apuração em quatro passos

  1. Registre as duas pernas como duas operações. Na montagem, lance a call comprada e a call vendida separadamente, cada uma com série, strike, quantidade e preço. Modalidade e valor total são calculados na hora, e as duas nascem com status Em Aberto.
  2. Crie a estratégia e associe as pernas, informando nome, tipo, ativo base e a descrição da tese. A partir daí você tem o P&L consolidado da estrutura sem ter fundido nada no livro.
  3. Ao desmontar, use a ação correspondente em cada perna, entre Encerrar, Encerrar parcial, Rolar, Pó e Exercida, sempre na perna que efetivamente teve aquele desfecho. Cada ação apura pela regra certa, com a data certa, e o status da estratégia se atualiza sozinho quando a última perna fecha.
  4. Feche o mês na página DARF. A apuração chega separada por modalidade, com cada perna na cesta correta, prejuízo compensado e IRRF abatido. Exporte em CSV ou PDF e guarde, porque é esse arquivo que sustenta sua declaração.

Dica prática: cansado de descobrir em maio que as duas pernas da sua trava fecharam em meses diferentes? O CarteiraOpções é gratuito, mantém cada perna como operação independente e agrupa tudo em estratégias, com o P&L da tese de um lado e a apuração correta do outro.


Perguntas frequentes

Trava de alta é uma operação ou duas para o Imposto de Renda?

São duas. A IN RFB nº 1.585/2015 apura por mercado e por operação, e não existe tratamento fiscal para estrutura ou spread. Cada perna tem resultado, modalidade e mês de competência próprios.

Posso compensar o prejuízo de uma perna com o lucro da outra?

Só se as duas estiverem na mesma modalidade. Sendo ambas swing trade no mesmo mês, elas se somam normalmente na apuração. Se uma for day trade e a outra swing, os resultados ficam em cestas separadas e não se compensam, nem nesse mês nem em nenhum outro.

O que acontece se só a perna vendida for exercida?

Você entrega as ações pelo preço de exercício, e o prêmio recebido é incorporado ao valor de venda desse ativo, o que leva a apuração para o mercado à vista em vez de opções. A perna comprada continua viva e independente, e você precisa decidir o que fazer com ela.

Trava de alta tem isenção de R$ 20 mil?

Não enquanto o resultado for de opções, já que a isenção mensal vale apenas para alienação de ações no mercado à vista em swing trade. Ela só entra na conta quando o desfecho é por exercício e o resultado migra para a venda das ações.


Se você já tem uma trava montada agora, faça um teste rápido antes de fechar esta página. Abra o extrato da corretora e confirme que as duas pernas aparecem como posições separadas, com séries e quantidades próprias. Elas aparecem, porque é assim que a B3 registra. O trabalho de controle consiste apenas em espelhar essa separação no seu próprio registro, em vez de desfazê-la em nome de um número consolidado que serve para pensar em risco e não serve para pagar imposto.

Este conteúdo é informativo e reflete a IN RFB nº 1.585/2015 e a legislação vigente na data de publicação. Ele não substitui a orientação de um contador para o seu caso concreto.

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